Xi Jinping afirma que BRICS é a plataforma mais influente do mundo para a cooperação entre mercados emergentes
Atualizado: 16 de set.

A declaração na abertura da cúpula de Nova Délhi
O Presidente da China, Xi Jinping, afirmou no sábado (12 ), que o mecanismo de cooperação do BRICS se tornou a plataforma mais influente do mundo para a cooperação entre mercados emergentes e países em desenvolvimento, ao discursar na Sessão I da 18ª Cúpula do BRICS, realizada em Nova Délhi, na Índia, num ano em que o agrupamento completa duas décadas de existência e reúne, pela primeira vez sob presidência indiana após a expansão histórica do mecanismo, líderes das principais economias do Sul Global. A fala de Xi — transmitida pela Xinhua e reproduzida pela CGTN — situou a avaliação do desempenho do grupo numa leitura mais ampla da conjuntura internacional, na qual, segundo o dirigente chinês, o mundo atravessa uma transformação acelerada sem precedentes em um século, o Sul Global cresce rapidamente em força econômica e política e a tendência à multipolaridade se mostra irreversível, ao mesmo tempo em que contracorrentes de unilateralismo e política de poder ganham força, o multilateralismo e a ordem internacional sofrem pressão crescente e os déficits de paz, desenvolvimento, segurança e governança continuam a se ampliar.
Foi a partir desse diagnóstico que Xi Jinping defendeu que os países do BRICS devem se posicionar firmemente do lado certo da história, esforçar-se para ser pioneiros de sua época, orientar a ordem internacional rumo a maior justiça e equidade e trabalhar conjuntamente pela construção de uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade, formulação que a diplomacia chinesa tem reiterado em todos os foros multilaterais de que participa e que — na avaliação apresentada em Nova Délhi — encontra no BRICS seu principal veículo de articulação entre economias emergentes.
A cúpula terminou com a adoção de uma declaração conjunta pelos líderes presentes, documento em que as partes, falaram altamente dos resultados alcançados pelo grupo ao longo de vinte anos, destacaram a ampla representatividade e o grande potencial de desenvolvimento do mecanismo e defenderam que, diante da escalada dos conflitos geopolíticos e da ascensão do unilateralismo, os países do BRICS têm a responsabilidade de falar em nome do Sul Global, sustentar o multilateralismo, apoiar o papel central das Nações Unidas, respeitar a igualdade soberana de todos os países, cumprir o direito internacional, opor-se à interferência em assuntos internos, defender o livre comércio e enfrentar conjuntamente os desafios globais.
O balanço de duas décadas
Ao marcar o vigésimo aniversário da cooperação, Xi Jinping descreveu o período como duas décadas de autossuficiência e autofortalecimento, durante as quais os países do BRICS exploraram ativamente caminhos de desenvolvimento adequados às suas próprias condições nacionais e ofereceram, na formulação do presidente chinês, um exemplo de fortalecimento pela união entre mercados emergentes e países em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que enfrentaram juntos desafios que iam da crise financeira global à pandemia de COVID-19 e às mudanças climáticas, mantendo-se firmes na defesa dos interesses comuns do Sul Global e fornecendo ao mundo estabilidade e impulso positivo num período de turbulência econômica recorrente. O dirigente chinês também caracterizou as duas décadas como frutíferas, lembrando que o grupo passou por uma expansão histórica de seus membros — estabeleceu um arcabouço de cooperação abrangente e de múltiplos níveis e entrou numa nova etapa de desenvolvimento de alta qualidade para o chamado grande BRICS, expressão que Pequim utiliza para designar o agrupamento ampliado após as rodadas de adesão iniciadas em 2024.
A continuidade dessa trajetória — argumentou Xi — depende de solidariedade e cooperação, forças que ele identificou como o motor da causa do BRICS ao longo de toda a jornada de vinte anos, razão pela qual pediu que os membros se tratem com sinceridade e franqueza, busquem o terreno comum respeitando as diferenças, respeitem as preocupações centrais uns dos outros e aprofundem a compreensão mútua por meio da comunicação e do diálogo, de modo a administrar adequadamente as divergências e garantir que a cooperação siga avançando de forma estável, num aceno direto às discussões internas do grupo sobre ritmo de expansão e prioridades da agenda.
Foto: CMG
Os quatro papéis de pioneiro
A parte central do discurso foi dedicada ao que Xi Jinping apresentou como quatro papéis de pioneiro que o BRICS deve assumir na nova etapa de sua história, começando pelo avanço do desenvolvimento impulsionado pela inovação, campo em que o presidente chinês pediu que os países do bloco tomem firmemente a iniciativa, fortaleçam a cooperação em inteligência artificial, incentivem o desenvolvimento de código aberto e os princípios de abertura, cooperação e compartilhamento e levem a cooperação prática a novas áreas e a novos patamares, tendo anunciado que a China propôs uma iniciativa para promover a nova industrialização por meio da inteligência artificial entre os países do BRICS e que está disposta a trabalhar com todas as partes para obter mais resultados em pesquisa, desenvolvimento e aplicação e para aprofundar a cooperação nas cadeias industriais e de suprimento.
Xi convidou expressamente os membros do agrupamento a participar ativamente da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, estrutura cuja criação a China vem articulando nos últimos dois anos e que — na leitura apresentada em Nova Délhi — deveria funcionar como instância de governança tecnológica aberta aos países em desenvolvimento, historicamente excluídos dos espaços onde se definem as regras da economia digital.
O segundo papel de pioneiro diz respeito à manutenção da paz e da estabilidade, e Xi Jinping pediu que o BRICS sustente uma visão de segurança comum, abrangente, cooperativa e sustentável, se oponha à mentalidade de Guerra Fria e ao confronto entre blocos, rejeite violações da soberania de outros países e interferências em seus assuntos internos e desempenhe um papel construtivo na solução de questões sensíveis, dando, nas palavras do presidente chinês, uma contribuição distintiva do BRICS para soluções que tratem tanto os sintomas quanto as causas profundas dos conflitos.
Ao abordar a situação no Oriente Médio, que qualificou de complexa e fluida, Xi afirmou que a guerra em curso infligiu perdas graves aos povos de todos os países da região e contraria os interesses comuns da comunidade internacional, e recordou as quatro proposições que apresentou para salvaguardar e promover a paz e a estabilidade no Oriente Médio, todas orientadas, segundo ele, à redução da escalada, ao fim das hostilidades e à promoção da paz, tendo instado as partes envolvidas a manter a direção da solução política e a trabalhar por um cessar-fogo permanente e abrangente, com o compromisso de que a China atuará junto aos demais membros do BRICS para cumprir o papel que lhe cabe na restauração da paz e da tranquilidade na região.
Os dois papéis restantes tratam, de um lado, da facilitação do aprendizado mútuo entre civilizações, com o presidente chinês defendendo que os países do bloco promovam os valores comuns da humanidade, estimulem o intercâmbio e a coexistência harmoniosa entre civilizações, assegurem o êxito do fórum do BRICS sobre intercâmbios culturais e entre povos, compartilhem experiências de governança estatal e aprofundem a cooperação em cultura, turismo e educação, com fortalecimento dos intercâmbios juvenis e aproximação mais frequente entre as populações.
No campo da reforma e do aprimoramento da governança global - frente em que Xi pediu que o grupo acompanhe a tendência a uma maior democracia nas relações internacionais, promova um sistema de governança global mais justo e equitativo, defenda a autoridade das Nações Unidas, sustente um sistema multilateral de comércio centrado na Organização Mundial do Comércio e rejeite todas as formas de medidas protecionistas, acrescentando que o agrupamento deveria liderar a governança global em domínios emergentes como o ciberespaço, o espaço exterior e os fundos marinhos e ampliar a voz dos países do Sul Global nos espaços onde essas novas regras estão sendo escritas.
As cinco iniciativas do segundo dia e a presidência chinesa de 2027
No segundo dia de trabalhos, neste domingo (13), Xi Jinping voltou à tribuna da cúpula para propor cinco iniciativas destinadas a aprofundar a cooperação do grande BRICS nos campos da inteligência artificial, da facilitação de comércio e investimentos, da indústria digital, da manufatura inteligente e do desenvolvimento de talentos, pacote que — na apresentação feita pelo líder chinês — busca manter estáveis as cadeias industriais e de suprimento, fomentar mercados integrados entre os países-membros e construir incubadoras de inovação capazes de fazer com que as novas tecnologias iluminem o caminho da prosperidade comum, expressão que resume a aposta de Pequim em transformar a cooperação tecnológica no eixo econômico da próxima década do agrupamento. As cinco iniciativas dialogam diretamente com a proposta de nova industrialização por inteligência artificial apresentada na véspera e indicam que a China pretende chegar à presidência rotativa do bloco com uma agenda concreta de projetos, e não apenas com declarações de princípios.
Xi Jinping confirmou que a China assumirá a presidência rotativa do BRICS e sediará a 19ª Cúpula no próximo ano, declarando que o lado chinês está pronto para trabalhar com todas as partes na construção de consensos e de um futuro melhor e na abertura do terceiro decênio dourado do BRICS, abrindo conjuntamente, nas suas palavras, um futuro brilhante de prosperidade e progresso.
As demais delegações, apreciaram a contribuição importante da China para o desenvolvimento e a expansão do mecanismo e manifestaram apoio à presidência chinesa de 2027 para que o país asiático conduza com êxito a próxima cúpula, de modo a elevar a cooperação do BRICS a um novo patamar, sinalização política relevante num momento em que o agrupamento ampliado p
rocura demonstrar capacidade de entrega em áreas tão diversas quanto inteligência artificial, reforma da governança financeira internacional e mediação de conflitos regionais, exatamente as três frentes em que o discurso de Nova Délhi concentrou suas ambições declaradas para o ciclo que se abre sob liderança chinesa.
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