China dobra exportação de chips e lucros do setor atingem recorde

As exportações chinesas de semicondutores somaram US$ 256,8 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, cifra equivalente a cerca de 1,3 trilhão de reais e 103,9% superior à registrada no mesmo intervalo do ano anterior, segundo dados divulgados pela Administração Geral de Alfândegas da China, consolidando um ciclo de expansão sustentado pela demanda global associada à inteligência artificial e pela capacidade produtiva instalada no país ao longo da última década.
Os números alfandegários indicam que a China produziu aproximadamente 1,5 bilhão de chips por dia no primeiro semestre, volume que acompanha o movimento de alta nos preços internacionais de componentes de memória e de circuitos integrados destinados a centros de processamento de dados.
Lucros em forte aceleração
O desempenho comercial veio acompanhado de resultado financeiro inédito entre os principais fabricantes do país, uma vez que pelo menos quatro grandes empresas do setor reportaram saltos superiores a 90% no lucro líquido da comparação semestral.
Levantamento publicado pelo South China Morning Post com base nos balanços das companhias listadas aponta que os lucros do segmento de fabricação de chips como um todo avançaram cerca de 2.579% no primeiro semestre, puxados pelas encomendas de memória de alta largura de banda e de aceleradores destinados a aplicações de inteligência artificial.
A Associação da Indústria de Semicondutores, entidade que representa fabricantes nos Estados Unidos, informou em relatório trimestral que o mercado global deve movimentar US$ 1,5 trilhão em 2026, valor que supera em mais de duas vezes o total negociado em 2025 e triplica o tamanho registrado dez anos antes.
A mesma associação registrou que as vendas globais de chips cresceram 25% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre imediatamente anterior, sequência de altas que refletiu a corrida de investimento em infraestrutura computacional anunciada por grandes grupos de tecnologia da América do Norte, da Ásia e do Oriente Médio.
Memória ganha participação global
No segmento de memória DRAM, a CXMT elevou sua participação no mercado mundial de 4% para 10% no intervalo de um ano, posição que a coloca como quarta maior fabricante do produto no mundo, atrás dos três grupos consolidados da Coreia do Sul e dos Estados Unidos.
A companhia concluiu em julho oferta pública inicial na Bolsa de Valores de Xangai, operação que captou US$ 9,8 bilhões e se tornou uma das maiores listagens do ano no mercado acionário chinês, recursos destinados à ampliação de linhas de produção e ao desenvolvimento de processos de fabricação mais avançados.
A YMTC, fabricante de memória NAND, seguiu trajetória semelhante ao ampliar sua fatia global de 11% para 14%, também na quarta colocação do ranking mundial, e inscreveu pedido de oferta pública com o objetivo de levantar US$ 4,9 bilhões para duplicar sua capacidade instalada na cidade de Wuhan.
Fundição e chips de inteligência artificial
A SMIC — maior fundição de semicondutores da China — encerrou 2025 com receita de US9,3 bilhões, crescimento anual de 16%, e projeta faturamento superior a US 11 bilhões em 2026, conforme comunicado encaminhado à Bolsa de Valores de Hong Kong.
A empresa mantém operação concentrada em nós de fabricação maduros, faixa do mercado que atende automóveis, eletrodomésticos, equipamentos industriais e dispositivos de comunicação, segmento em que a capacidade ociosa global permanece reduzida diante do volume de encomendas.
A Cambricon — desenvolvedora de processadores voltados a treinamento e inferência de modelos de linguagem — registrou aumento de 453% na receita e alcançou lucro operacional pela primeira vez desde sua fundação, resultado que acompanha a adoção de aceleradores domésticos por provedores de computação em nuvem do país.
Fatores que explicam a expansão
O movimento atual combina três vetores identificados por institutos de pesquisa e por casas de análise que acompanham a cadeia de semicondutores, a saber, a elevação da demanda por capacidade computacional, o encarecimento dos componentes de memória e o amadurecimento da base industrial chinesa formada após anos de investimento estatal.
A corrida internacional para construir centros de processamento dedicados à inteligência artificial inflacionou o mercado de componentes, encarecendo memórias, placas e dispositivos finais, efeito que se refletiu nos preços de computadores pessoais e de telefones celulares vendidos no varejo de diversos países.
As restrições impostas pelos Estados Unidos desde 2022 à exportação de equipamentos litográficos e de chips de alto desempenho aceleraram o programa chinês de autossuficiência tecnológica, política que destinou subsídios, crédito dirigido e encomendas públicas a fabricantes locais de circuitos integrados.
A posição dominante da China no processamento de terras-raras, insumo essencial à fabricação de ímãs permanentes, lasers e equipamentos de deposição utilizados na indústria de semicondutores, acrescenta uma alavanca estratégica ao país no comércio global de tecnologia.
As fabricantes chinesas consolidaram espaço em faixas de preço competitivas, condição que as transformou em alternativa viável para montadoras, produtoras de eletrônicos e operadoras de telecomunicações que buscam diversificar fornecedores, ainda que a qualidade dos aceleradores locais permaneça atrás dos produtos líderes de mercado.
Composição do crescimento
Dados desagregados da Administração Geral de Alfândegas mostram que o volume físico exportado de circuitos integrados somou 179,4 bilhões de unidades no primeiro semestre, avanço de 6,9% sobre o mesmo período do ano anterior, enquanto o valor em dólares das remessas dobrou no intervalo.
A diferença entre os dois indicadores levou analistas consultados pela imprensa financeira de Hong Kong a afirmar que parcela relevante do salto registrado nas estatísticas de comércio exterior decorre da elevação dos preços médios dos componentes, e não de expansão equivalente na quantidade embarcada.
O Ministério da Indústria e da Informatização da China declarou em comunicado que o governo manterá apoio à pesquisa em processos de fabricação avançados e à formação de mão de obra especializada, sem detalhar novas linhas de financiamento para o setor.
Pontos de atenção
Casas de análise que acompanham o ciclo de semicondutores alertam para a possibilidade de correção na demanda nos próximos trimestres, dado o ritmo inflado de investimento em infraestrutura de inteligência artificial anunciado por grandes grupos de tecnologia ao longo de 2025 e 2026.
Relatórios divulgados por instituições financeiras internacionais registram que a concentração de encomendas em poucos compradores de grande porte torna o faturamento da indústria sensível a eventuais revisões nos planos de expansão de centros de dados.
A manutenção das restrições tecnológicas impostas pelos Estados Unidos e a possibilidade de ampliação dessas medidas a novos equipamentos de fabricação seguem como variável central para o planejamento das fundições chinesas — conforme documentos enviados pelas companhias aos órgãos reguladores do mercado de capitais.
Enquanto isso, os dados alfandegários de agosto indicam que o fluxo de exportações permaneceu elevado no fim do período analisado, trajetória que sustenta a projeção de encerramento de 2026 com valor exportado superior a US$ 380 bilhões, caso o ritmo dos oito primeiros meses se repita até dezembro.

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